Gnosticismo Tecnológico: o Imaginário Cibercultural

Desde há muito tempo que a reflexão em torno da Tecnologia conduziu a um manancial de teorias de racionalização e até de desencanto, (Tecnofobia), a minha questão fundamental é:

Existe uma “afinidade electiva” entre as novas tecnologias e aquilo a que designarei de uma nova forma de religiosidade pós-tradicional?
Alicerçado nas afirmações de vários autores, de que muitos “New Agers”, “Cyberpunks”, Programadores Informáticos e Técnófilos, concebem o Ciberespaço como um local encantado e sagrado possibilitador duma “desencarnação imortal”e omnisciente, numa fusão Gnóstica do “Self” com o “Reino Divino da Informação”, questiono, em que tipo de circunstâncias é possível encontrar tais correspondências entre a realização do “Self” num Gnosticismo de contornos New Age, e um hipotético estádio de evolução duma “Humanidade Desencarnada” no ciberespaço, e se de facto entram em contradição com as teorias modernistas que postulam sistematicamente um afastamento entre Religião e Tecnologia.
O "pacto" estabelecido entre o homem contemporâneo e a tecnociência visa a ultrapassagem das limitações da organicidade, apontando para a construção de um ser híbrido "pós-biológico", misto de corpo humano e artifício técnico. A informática, as telecomunicações e as biotecnologias alimentam o sonho neo-gnóstico da "pós-evolução": através delas, o homem "pós-biológico" almeja desvincular-se das restrições espaciais e temporais ligadas à sua materialidade orgânica, para atingir a virtualidade e a imortalidade.
A ambição desta indagação é o estudo da possível conexão entre o desenvolvimento das novas Tecnologias e o surgimento de tipos de religiosidade pós-tradicional.
O foco principal desta temática incidirá sobre aquilo a que designarei por “Gnosticismo Tecnológico”, ou seja uma reinvenção do esoterismo que encara o mundo material como uma prisão, da qual é necessário escapar, procurando a libertação num espaço de salvação espiritual – oculto aos não iniciados - onde miraculosas realizações do potencial humano poderão ser alcançadas. A forma presente deste tipo de religiosidade, relativamente negligenciado pelas ciências sócias e humanas*, emergiu após o Ocultismo do séc.XIX ter recolocado o Divino no “Self” humano ou “Psyche”, culminando na sacralização do “Self” pelo movimento New Age. Esta proposta sugere que a “topografia do espaço divino”, pode mudar quando as pessoas prometem umas às outras a libertação da prisão do corpo e do mundo material através das possibilidades transcendentes da Realidade Virtual, do “Self” espiritual e do Ciberespaço, fazendo com que este último se torne um topoi do Divino.

-Será que a manifestação de uma nova forma de Gnosticismo moderno, é estimulada por situações em que os indivíduos possam esquecer o aspecto material e funcional da Tecnologia, mergulhando numa cultura de simulação?

-De que formam se relacionam as fantasias duma libertação espiritual, das prisões do corpo e da matéria com outras metáforas duma futura sociedade tecnologicamente orientada?

-Que metáforas, utilizadas pelas novas formas de religiosidade pós-tradicional poderemos encontrar nos discursos da cibercultura?

Como pressupostos metodológicos para esta problemática, terei em conta que a reflexão teórica assume ares de narrativa ficcional, enquanto que os designados «produtos da cultura» (Romances, filmes, obras de arte) se tornam cada vez mais auto-reflexivos e teóricos. Tentarei utiliza-los de forma a poder comprovar a presença e o poder do imaginário da Transcendência nos discursos da Cibercultura.

Júlio Mendes Rodrigo, 25 de Outubro de 2008

*Honrosa excepção é a edição da obra "O esoterismo e as humanidades” / coordenação Maria Isabel Sampaio Barbudo, Edições Colibri.
(reúne comunicações apresentadas no colóquio «O Esoterismo e as Humanidades» promovido pelo Conselho Directivo da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa nos dias 27 e 28 de Maio de 1999. Este acontecimento de âmbito interdisciplinar veio enriquecer a área das Humanidades, ao sublinhar o esoterismo como objecto de investigação, contribuindo para que este tema deixe de permanecer à margem do discurso académico.)


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